22 de março de 2012

O início, o fim e o meio: Marcelo Nova relembra devoção, encontros e parceria com Raul Seixas


Os músicos Marcelo Nova e Raul Seixas, em foto tirada na década de 1980


Em outubro de 1988, o roqueiro baiano e fundador da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova, convidou o amigo Raul Seixas para voltar aos palcos depois de cinco anos de hiato. Raul andava mal das pernas, com a saúde debilitada pelo abuso do álcool, e sua carreira havia sido colocada no ostracismo. "Marceleza, será que eu estou em forma?", perguntou o maluco beleza a Nova. "Quem é rei não perde a majestade, Raulzito", devolveu o pupilo, que no ano que se seguiu embarcou com Raul em uma turnê pelo país que só se encerrou em 21 de agosto de 1989, dia da morte do ídolo e antevéspera do lançamento do primeiro e único disco em parceria da dupla.


Por ocasião do lançamento de "Raul - O Início, o Fim e o Meio", documentário sobre o cantor que estreia nesta semana nos cinemas brasileiros, o UOL convidou Nova para dividir essa e outras memórias de sua relação com Raulzito. Confira a seguir o depoimento exclusivo:


A primeira vez que vi Raul Seixas foi em Salvador, no início dos anos 60, no Instituto de Reabilitação da Criança Defeituosa, entidade idealizada e dirigida pelo Dr. Fernando Nova, meu pai, que no final de cada ano promovia uma festinha para crianças portadoras de poliomielite.


Lembro que numa delas, entre apresentações de palhaços e mágicos, repentinamente surgiram dois adolescentes. O primeiro trazia uma vitrola portátil numa das mãos e ainda empurrava um carrinho de bebê, no qual estava o outro garoto vestido de nenê, com mamadeira, chupeta e demais acessórios. O que estava em pé liga a vitrola, põe o disco "O Boogie do Bebê" e começa a fazer uma dublagem embalada por passos de rock n' roll e requebros "elvinianos".


Houve subitamente um breque musical e o "bebê" se ergue no carrinho, joga a chupeta no chão e balbucia qualquer coisa. O outro dá-lhe uma bofetada e segue dançando para a gargalhada geral de quem, assim como eu, assistia atentamente à performance. O que estava vestido de bebê chamava-se Waldir Serrão. O frenético dançarino de topete atendia pelo nome de Raul Seixas. Eram os sócios-fundadores do "Elvis Rock Clube" e tinham uns 16 ou 17 anos.


Ainda não sabia que Raul morava na Graça, o mesmo bairro que eu [em Salvador]. E foi lá mesmo, na Graça, que alguns anos depois aconteceu a FIT (Feira de Indústria e Tecnologia), onde vários stands anunciavam, promoviam e vendiam as novas "maravilhas": televisores, liquidificadores e fogões tinham as suas virtudes enaltecidas por belas garotas de minissaia, sentadas em convidativas poltronas e exibindo coxas que levavam garotos como eu ao êxtase.


Perto do final do expediente, porém, elas sempre terminavam saindo com alguém mais velho, o que, se por um lado frustrava, por outro era o sinal de que iria começar o musical de encerramento das atividades da feira com a melhor banda de rock n' roll: Raulzito e Os Panteras. 


Foi através deles que obtive meu primeiro contato imediato com o rock n' roll. Tinha já compactos e LPs de Little Richard, Elvis, Beatles e Stones, mas jamais havia visto nada disso ao vivo. Raulzito, vestido com um casaco de couro, tremia, dançava e se jogava no chão, provocando estranhamento em boa parte da plateia, habituada a performances mais corriqueiras. "Há muito tempo atrás, na velha Bahia, eu imitava Little Richard e me contorcia, e as pessoas se afastavam pensando que eu 'tava tendo um ataque de epilepsia'", diria ele em "Rock N' Roll", música que fizemos juntos em 1989. 


Os Panteras rosnavam e rugiam tanto que, no final do show, dezenas de garotas disputavam o privilégio de uma aproximação, desejando e ao mesmo tempo temendo ser mordidas. E eu voltava para a casa andando, com o coração acelerado, lembrando de cada momento e alegre por constatar que havia algo mais na Bahia além das fitinhas do Bonfim, acarajés e abarás.


De Raulzito a Raul, o porta-voz de domésticas, profissionais liberais e intelectuais
Alguns anos mais tarde, Raul se mudou para o Rio de Janeiro e eu só voltaria a vê-lo pela TV, no Festival Internacional da Canção, em 72, cantando "Let Me Sing, Let Me Sing". E foi logo depois, através de discos como "Krig Ha Bandolo", "Gita", e "Novo Aeon "que ele deixaria de ser Raulzito, o cantor de rock n' roll para tornar-se Raul Seixas, o compositor que imprimiu altas doses de pertinência, mordacidade, sarcasmo, reflexão e inteligência no texto da música brasileira. 


Sozinho, ou em parceria com Paulo Coelho, escrevia para um público heterogêneo (empregadas domésticas, profissionais liberais e intelectuais incluídos). E, como um caso único, fazia-se não só compreender, mas também o mais importante, dava a chance ao ouvinte de compartilhar e se identificar com o que era dito. Não era ingênuo como o rock que o antecedeu nem tão pouco partilhava a pseudo-poesia de lugares-comuns (com raras exceções) da MPB da época.


Seus shows transformaram-se no despacho literal da bagagem libertária que trazia dos anos 60. Em 1976, na concha acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, durante uma apresentação, Raul despe-se no palco. "Essa é minha terra, e nela fico do jeito que quero." Incontinente, manda o público jogar fora as carteiras de identidade. "Não existem fronteiras na Terra que transformem seres humanos em números", dizia Raul, provocando uma verdadeira chuva de cédulas verdes e uma terrível dor de cabeça em quem precisasse delas nos dias seguintes.


A essa altura a parceria com Paulo Coelha já havia esfriado, mas Raulzito, agora ao lado de Cláudio Roberto, continuava emplacando hits que se tornariam clássicos como "Maluco Beleza", "Aluga-se" e "Rock das Aranha". Esta última, no período de seu lançamento, em 1980, foi proibida de execução em rádio.


Encontro no Circo

Nessa época, eu já havia formado o Camisa de Vênus e em 1982 iria com a banda para o Rio de Janeiro, onde havia uma cena incipiente com novos grupos que surgiam de vários cantos do país. E o local obrigatório para todos se apresentarem era o Circo Voador. Foi lá, numa noite no final de 1983, que o Camisa de Vênus se apresentou em uma casa não muito cheia, mas com um convidado muito especial na plateia.


Maria Juçá, que produzia todos os eventos e até hoje comanda o Circo Voador, me disse no camarim que Raul Seixas tinha acabado de chegar pois queria me conhecer. Como ele costumava ironizar todo o rock brasileiro, achei que ela estivesse brincando. Não estava. Ele chegou, ela nos apresentou e no final do meu set, com a maior cara-dura, convidei-o ao palco. Para minha surpresa (eu achava que ele não iria topar) e indescritível satisfação, ele entrou vestido de jeans e com uma enorme bota de cowboy até os joelhos.



Tocamos um medley de rock dos anos 50, "Be Bop A Lula", "Blue Suede Shoes", "Whole Lotta Shakin' Going On" e no final apertamos as mãos. Um ano depois, em São Paulo, fui no camarim de um show que ele havia feito, conversamos, trocamos endereços e, a partir daí, estabeleceu-se entre nós uma relação de amizade que perduraria até sua morte.


Neste período ele, que já havia lançado o disco "Metrô Linha 743" (cuja música título e letra desconcertante e surreal até hoje me provoca uma estranha sensação de desconforto ao ouvi-la), afastou-se dos palcos com a intenção de dedicar-se apenas a trabalhos de estúdio: "Esse negócio de show é doideira. Nego quer me pagar, me esticar, me matar. Eu não sou John Lennon e tenho medo de levar um tiro lá em cima. No estúdio eu gosto mais. Posso ficar que nem o Professor Pardal fazendo minhas experiências."


Back to Bahia

Em 1987, ambos morando em São Paulo, saiu nossa primeira parceria, "Muita Estrela, Pouca Constelação", que cantamos juntos no último disco do Camisa. Depois do final do grupo empenhei-me na formação de minha nova banda, Envergadura Moral, e na gravação do meu primeiro disco solo. Como Raul também estava envolvido com seu disco "A Pedra do Gênesis", ficamos alguns meses sem nos ver.


Finalmente, numa noite de outubro de 1988, saímos para jantar e o convidei para ir até a Bahia, onde eu faria dois shows. Como ele havia encerrado o quinto casamento e estava bastante abatido, pareceu-me que uma viagem seria boa para o espairecer. Ao chegarmos em Salvador, ele havia decidido que chegara o momento de quebrar uma abstinência de cinco anos de palco:

- Marceleza, será que eu estou em forma?

- Quem é rei não perde a majestade, Raulzito.

Quando finalizei o meu set e o anunciei, a plateia veio literalmente abaixo, pulando o fosso que a separava do palco. Era a volta do precursor do rock brasileiro em texto e atitude. Do cara que hipnotizava multidões. De um rebelde verdadeiro que ironizava o sistema, que provocava e também convocava seu público a pleitear uma sociedade alternativa a se desenvolver no âmago de cada um.


Encerrado o show, estávamos todos tão contentes, ele, eu e a essa altura nossa banda, a Envergadura Moral, que resolvemos fazer mais uns dois ou três shows juntos para vermos como ficava. Os dois ou três vieram rápido, e com eles a vontade de fazer mais. A cada show, apesar do visível estrago que muitos anos de álcool ininterrupto fizeram no seu organismo, debilitando-o e dificultando a sua locomoção, eu me emocionava descobrindo, naquela face precocemente envelhecida, o rosto do garoto que me fez vibrar e acreditar que eu também encontraria o meu caminho.


Estar ali com ele compartilhando o mesmo palco tinha para mim um significado único: não era apenas a junção de dois artistas de gerações diferentes que celebravam suas afinidades através da linguagem comum do rock n' roll. Era o meu passado que se encontrava com o meu presente 25 anos depois, fazendo com que o caos da estrada, a solidão dos quartos de hotel, o desconforto dos ônibus e aeroportos, o amargo dos chocolates e cafés e as imagens fragmentadas da noite anterior fizessem sentido.


A essa altura, já tínhamos várias músicas em parceria, e quando surgiu o convite de Andre Midani, então presidente da Warner do Brasil, para gravarmos um disco juntos, Raul me disse: "Somos nós dois. Vai ser a panela do diabo, Marceleza..." E assim foi. Gravamos o disco em um mês e, à medida que nos aproximávamos do fim, íamos nos certificando de que este era um trabalho que iria ficar. Faltavam apenas dois dias para o lançamento quando fomos surpreendidos pela sua morte.


Raul foi um artista que em vida sempre se expôs, sempre se posicionou, que cometeu todos os excessos possíveis e também os inimagináveis, que vivia o que cantava e cantava como vivia, sem ter tempo para as previsíveis estratégias de marketing que ainda hoje dominam o mercado fonográfico. Através dele, milhões de pessoas tiveram a oportunidade de confrontar a arte em seu sentido mais amplo - impactante, corrosiva, febril e passional. Levou às últimas consequências o "faz o que tu queres" e pagou o preço pois, no final, ele sabia que "há de ser tudo da Lei".


* Marcelo Nova, 60, é cantor e compositor. Trabalhou como radialista, crítico musical e, nos anos 80, fundou a banda de punk rock Camisa de Vênus, em Salvador, com a qual se apresenta esporadicamente até hoje. Em 1989, lançou o disco "A Panela do Diabo", com Raul Seixas.

Fonte: http://musica.uol.com.br 


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