2 de maio de 2012

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas


Tim Burton é um cineasta incomum, suas obras são pessoais e diferentes. Quase sempre imprimindo um visual próprio e único a seus filmes. Ele é o típico artista em que se ama ou odeia...
E essa produção é exatamente assim - Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas convida o poder de uma boa história a embarcar em suas próprias alegorias. O roteiro, de John August, adaptado do livro de Daniel Wallace, encontra o ambiente ideal para ser desenvolvido, como um bom conto à frente dos espectadores mais atenciosos e interessados.

Edward Bloom (Albert Finney) é um típico contador de histórias que acaba despertando uma certa revolta em seu filho, Will Bloom (Billy Crudup), por ser visto como um homem apoiado sobre inverdades. Will, descrente das histórias fantásticas do pai, tenta, sem qualquer sucesso, arrancar algumas palavras verdadeiras. Acredita ele ter vivido calçado por todas as mentiras que escutara.


Após anos sem se falarem por causa de uma briga verbal, os dois se reencontram devido à grave doença de Edward. É nesse momento que os diálogos brilhantemente escritos entram na narrativa. Pai e filho protagonizam uma discussão, finalizada por um clichê muito bem utilizado e que causa verdadeira comoção: “Este sou eu. Este é quem sempre fui.” Esbraveja Ed Bloom.

Mesmo juntos a um elenco fortíssimo, os maiores destaques são os dois intérpretes do contador de histórias. Quando jovem (em uma aula do uso de flashbacks), Ewan McGregor nos mostra um Ed quase sempre sorridente e certo do seu futuro. Não que sua vida seja repleta de felicidades, mas, afinal, ele é “apenas” um personagem... Ele sabe o que virá pela frente, o que reflete até mesmo nos olhos de McGregor. Albert Finney, por sua vez, certamente tem um papel mais delicado, e o faz brilhantemente. É ele que tem o dever de nos fazer acreditar em suas histórias, mesmo que elas sejam as mais fantasiosas possíveis. E acontece. O Bloom mais velho se mostra um Forrest Gump mais maduro e até mesmo mais convincente, cativando o espectador e a sua atenciosa nora, interpretada discretamente por Marion Cotillard.



O longa também nos presenteia com algumas cenas românticas das mais verdadeiras e convincentes. Na mais bela delas, Ed Bloom (Finney), já doente, encontra-se deitado em uma banheira completamente vestido, quando sua mulher, Sandra Bloom (Jessica Lange) o encontra. “Estava me sentindo seco”, diz ele. Uma clara alusão à falta de lágrimas daquele homem que viveu toda uma vida sorrindo. Também vestida, Sandra entra e senta na banheira e, após um sinal do marido, deita-se em seu peito e diz: “Eu vou me sentir seca, Ed.” E chora silenciosamente.


Tim Burton, por sua vez, está completamente à vontade com tudo que envolve o filme, demonstrando a sua sensibilidade artística e sua capacidade inventiva diante de um bom roteiro que lhe dê liberdade. Roteiro que é recheado de boas pérolas como: “É rude falar de religião. Nunca se sabe quem vamos ofender.”, diz o contador de histórias à mesa. “É o que dizem quando você encontra o amor da sua vida... o tempo pára.”, e a cena que se segue é genial.

A Fotografia de Philippe Rousselot é eficiente ao conferir diferentes ambientes a cada ocasião, seja ela fantasiosa, assustadora ou romântica. Também se faz notar na precisão com que destaca, com um brilho aural não forçado, o rosto da Sandra (jovem - Alison Lohman - ou não - Lange) em relação a todo o ambiente. É como se quisesse nos mostrar o que Edward enxergava. Da mesma forma, em uma única tomada, ele destaca o rosto de Jenny (Helena Bonham-Carter), quando Edward (McGregor), já casado, ameaça a beijar, induzindo a acreditarmos que se Ed houvesse feito outras escolhas, ela seria o amor da sua vida.



Ao final, o roteiro encontra o seu ápice (como sempre deveria ser), revelando todo o segredo do filme. Eu poderia explanar tudo que acontece, mas se você está lendo antes de assistir, irá perder todo o mistério.





Fonte: cinema10.com.br



Karina Carreira




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